quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A mudança

Bagé, 14 de abril de 1970.

Recordar é viver...

Ainda me lembro, apesar de já se passar tanto tempo desde o dia em que saí daquele bairro, que me viu nascer, para a minha atual residência.

Foi no dia 10 de maio de 1961, tinha eu nessa época aproximadamente 10 anos de idade, porém recordo que o dia amanheceu diferente, parecia me acompanhar na tristeza de deixar minhas amizades, daquela localidade onde em meio aos folguedos eu brincava todas as tardes, esquecendo do mundo em que vivia.

Naquele dia cedinho minhas amigas vieram procurar-me, para pedir meu novo endereço, tive o cuidado de que nenhuma ficasse sem saber onde eu iria morar, porém saia que daquela data em diante nossos caminhos se iriam separar a medida que o tempo passasse.

Após o meio dia começou a garoar, era precisamente duas horas da tarde quando chegou um caminhão que deveria transportar nossos móveis e utensílios domésticos, meus pais fizeram tudo as pressas, pareciam discordar da minha angústia, carregaram rapidamente o caminhão, limparam a casa, etc, em tempo recorde aumentando assim a tristeza de ver chegar a hora da despedida. Durante esse tempo ocupei-me dando endereço e jurando reciprocamente as promessas de visita entre minhas companheiras.

Eis que chega a hora inevitável, fui chamada por papai e já com lágrimas nos olhos senti o impulso instintivo de subir no caminhão para assim poder ver melhor e pela última vez o meu querido bairro, cheguei ao auge do desespero ao vê-lo afastando-se aos poucos até sumir-se totalmente de minha visão.

Andamos aproximadamente quinze minutos e logo avistei meu novo lar, a primeira intenção que tive é a de que não iria conseguir morar ali, até mesmo pensei em voltar para junto de minhas amigas naquele mesmo instante, porém dado a necessidade de uma manobra brusca fez com que meu pensamento fosse dissipado. 

Ao chegar-mos deparei com uma moradia bem maior que a nossa, ao entrar senti cheiro de casa nova, tinha ainda o aroma de tinta, imediatamente recorri ao pátio, fiquei maravilhada quando deparei com um bonito lago onde os peixinhos nadavam parecendo saudar os novos inquilinos, o jardim mostrava com suas flores todo o fulgor da primavera e as árvores por sua vez arcavam com o peso das frutas, porém o que mais  alegou-me foi a expontaniedade de uma menininha de seus quatro anos de idade que ainda de cima do muro veio dar suas boas vindas, dizendo em um convite praticamente, que iria apresentar-me suas amiguinhas.

Diante de tanta bondade, senti-me sensibilizada e não hesitei em aceitar tão significante convite, estabeleci a condição de então somente a amiguinha conceder-me tempo suficiente para eu prestar auxílio a minha mãe e iríamos ter junto as nossas amigas. Imediatamente tratei do apronto de meu quarto e encaminhei-me para a frente da casa, onde já estava a minha espera para o passeio, a menininha.

Foi assim que iniciou-se novas amizades, adaptei-me de pronto ao novo ambiente, ficando apenas a recordação da velha casa onde morava.

Às vezes alguma amiga vem visitar-me, e as novidades sucedem-se. À todas confesso minha saudade, porém nunca deixo de elogiá-las para as novas amigas, e até mesmo algumas delas aumentaram seu lastro de amizades devido a minha mudança.

Estou feliz, e não poderia almejar maior satisfação, pois reina em nosso lar felicidade, bonança e a verdade e que a exemplo da casa antiga Deus também está presente.

Fim

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